É fácil recusar convites.
Difícil é não pensar — por isso me ponho a cismar.
Não é falta de tempo — nunca digo isso.
Digo que não quero. E ponto. Não vou.
Não, não é cansaço…
“É um não sei o quê que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.”
Demorei a perceber.
Por um tempo, pensei: fiquei assim, mais madura ou simplesmente dura?
Haverá em mim uma parte pouco comovida,
Que não convida para o quase nada?
Não. Sinto que não é isso.
Há dias em que acordo e vou.
O corpo já aprendeu e vai antes que eu pense em ir.
Há um tipo de esforço que me convoca para a vida —
Aquele que não promete, que não garante,
Que me coloca diante de um começo sem saber do fim.
Ali, onde é preciso insistir,
Onde o outro está,
Onde a presença é uma opção.
Ali tem vida.
E eu estou.
Outro dia fui também, comigo mesma.
Um endereço que não me pertencia, pessoas que eu não conhecia.
Antes mesmo de encontrar quem me chamou, fui me aproximando de pequenos sinais — um rosto, uma conversa começando,
Algo que busco, sei nomear, e reconheço.
E fiquei.
Voltei com uma sensação que me é comum:
A de ter me encontrado inteira.
E há ainda algo que me é caro e repleto de intimidade:
Minha casa habitada por poucos — minha filha, seu marido e eu.
O encontro sem pressa,
O preparo da comida juntos,
É a conversa tirada de dentro do peito,
Os risos soltos,
O café coado,
A mesa em companhia.
O tempo passa sem escapar.
E não há motivo para ir.
Ficamos.
Sem dever ao tempo,
Com a benção da boa noite,
Sem sobras nem faltas.
A louça foi lavada, tudo volta para o seu lugar — e nada pesa.
Há uma espécie de repouso dentro de mim.
Então não —
Não é cansaço.
É um estar aqui, em mim,
Deixando a vida correr sem fim.
Talvez não seja dureza.
Seja clareza de intenções —
A partir do que compreendo e pressinto.
Recuso o que não tem vida.
E, quando tem —
Eu reconheço, me envolvo
E vou.